segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

pedaços e memórias

Eu queria a liberdade de mil homens. Eu só queria dançar e ver o teto girando como a gente enxerga as coisas depois de várias doses de vodka e se perde olhando pro nada. Eu só queria a multidão de uma festa pulsando nas minhas veias. Mas me encontrei sozinha demais.
Chorei a semana inteira tentando entender o porquê de tudo isso, toda essa confusão sentimental. Passei a semana em uma montanha-russa de sentimentos descompassados e contraditórios. Buscando explicações pros fantasmas do passado que voltaram a assombrar meus sonhos. Procurando remédio pras minhas feridas abertas que eu imaginava cicatrizadas.
Em cada sonho desfeito, um fragmento do tanto que eu queria você. Durante um bom tempo, você esteve presente demais na minha vida. Nas horas boas e nas ruins. Eu acordava e desejava ardentemente que você me ligasse. Eu acordava e desejava ardentemente que você sumisse da Estratosfera para eu nunca mais cair em tentação. Eu acordava e esquecia do tanto que eu gostava de ti porque haviam outros caras com quem eu gostaria de ganhar meu tempo. Você era passatempo, brincadeira, paixão, loucura, dor e prazer. E misturando tudo isso num copo só, você era meu vício.
Agora eu fico tentando entender porque continua doendo tanto se você nunca foi, de fato, o cara que eu gostei de verdade. Porque continua sangrando tanto mesmo depois de pomadas cicatrizantes e doses diárias de analgésicos. Porque eu sinto vontade de chorar só agora, depois de tanto tempo. Porque continua me machucando tanto a falta de amor, se eu sempre fui moderna demais pra querer alguém ao meu lado. Porque está tudo tão vazio quando eu só sei amar demais.
Talvez seja porque eu tenha feito planos e eu jamais planejei porcaria nenhuma na minha vida, mesmo controlando os gastos financeiros e desejando viajar a vida inteira dentro de um “bus house”, vivendo de congelados e bolacha recheada. Talvez porque eu tenha tentado ser a melhor pessoa do mundo, maquiando meus defeitos pra você jamais conhecer as minhas imperfeições humanas e me amando pra todo sempre. E talvez doa ainda mais porque eu estava convicta que ia casar de véu e grinalda depois de tanto tempo praguejando as meninas do interior que só sonham em subir ao altar.
Eu tinha uma vida inventada desenhada em quadrinhos coloridos de giz de cera. E mesmo que você não me fizesse feliz nem em 20% dos dias que compartilhamos, eu desejava que você descobrisse que, no fundo, era o cara que eu amava. Mas eu acabei descobrindo antes que não amava nem um terço dessa pessoa que você era.
Não sei por que choro. Mas sei que o pranto fica entalado na minha garganta em diferentes horas do meu dia. Sei que os olhos ficam marejados e sequer enxergam a tela do computador. Não choro por ti. Há meses eu não choro sequer pela sombra do que você se mostrou um dia. Acho que choro pela morte da menina que acreditava em sonhos, que se desfizeram como nós em laços de fitas amarelas no fundo de alguma gaveta. Choro pelos quadrinhos em branco e preto da minha história rabiscada. Choro pela ausência de um final feliz.

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