Sempre tive gosto esquisito. Nunca me apaixonei por uma pessoa, mas por partes dela. Já namorei uma bunda, fiquei de quatro por um nariz, me apaixonei por um olhar 43, cismei com um abdômen, paquerei uma boca carnuda e quis ser a mulher da vida de um sorriso. Claro que depois desses pedaços que me chamaram a atenção, veio o sentimento pela parte inteira. Mas que não durou tempo suficiente para escapar da sina de paixão-miojo.
Só que eu continuo procurando metades e fragmentos que me despertem de alguma forma. Talvez seja até aquela velha história da metade da laranja subjetivamente impregnada nas minhas veias, porque no fundo, bem no fundinho, até a mais moderna de todas as mulheres quer ter onde esquentar os pés gelados no inverno.
Quando aparecem caras bacanas, que se apresentam com mais pedaços perfeitos, eu confesso que tenho medo. Já pensou um cara com sorriso bonito, um nariz engraçado e ainda por cima inteligente? Tenho até pena do meu coração.
Eu fujo de todos os tipos bacanas que cruzam o meu caminho porque eu morro de medo de me apaixonar. Eu fujo de todos os tipos que me fazem rir, porque eu sei que vou me apaixonar. Eu fujo, querendo ficar, de todos que me despertar mais que tesão, porque meu coração ainda não é à prova de pancadas e machuca a cada tombo. E eu ando tão cansada de refazer curativos e passar pomadas cicatrizantes em mágoas que não param de doer, que fujo. Desapareço.
Só que dói tanto fingir que não gosto. Dói tanto sentir o coração num descompasso acelerado e ensaiar cara de paisagem na frente do espelho. Dói tanto prender um “eu te amo” entre os dentes. E dói de um jeito que quem não sente, não pode imaginar.
Às vezes eu sinto vontade de dizer “ó, eu sei que você sente tanto quanto eu, mas não fala nada. Só me abraça!”, e assim ficar por uma semana. Deixando o cheiro de perfume impregnar nos poros. Deixando o cheiro do pescoço grudar na pela nua do nariz do outro. Ou então passar horas admirando o sono. Ver a cara amassada ao acordar e os olhos miúdos. Eu confesso que acho a hora de acordar a parte mais limpa e honesta do amor. A parte mais linda.
Os caras bacanas me tiram do sério. Tiram mesmo. E o mais bacana de tudo é que eles são naturalmente bacanas. Não tentam ser o que não são, não fingem ser o que não são. São eles mesmos. De um jeito leve. De um jeito eterno.
Talvez eu deixe de correr quando um cara bacana de verdade decifrar todas as senhas da minha esfinge particular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário