Depois que você despejou toda sua ira em mim e abriu no meu coração uma cratera do tamanho da camada de ozônio, eu fui obrigada a ver as respostas estampadas na minha cara. Todas elas estiveram o tempo todo embaixo do meu nariz. Tudo o que eu nunca quis enxergar esteve piscando na altura dos meus olhos com cor verde fosforescente.
Mas, como boa teimosa que sou, continuei tapando meus olhos com a perfeição inexistente para tentar cessar a dor que não parava de doer.
Eu não quero ver o que está diante dos meus olhos. Eu não quero enxergar que as coisas não serão como eu planejei, como eu sonhei, como desejei. Eu não quero aceitar que o meu castelo de areia era feito de barro e que os sorrisos sinceros se transformaram em lágrimas. Eu ainda tenho esperança que as coisas mudem e a gente volte a se amar como um dia acreditou que amava.
Quando eu chorei, eu deixei derramar o pranto do meu medo de mim mesma. Um pranto doído que saia da alma. Uma compulsão de lágrimas. Um rio dentro dos meus olhos.
Ainda existe sentimento. E existe também um caminhão de dúvidas cruéis, de lacunas vazias, de medos, de insegurança, de palavras não ditas, de silêncios consentidos. Eu tenho medo do que não ouço você dizer. Eu tenho medo do que não vejo você fazer. Eu tenho medo de ter mudado tanto e estar errando nas coisas mais simples, porque para mim, o detalhe é o essencial.
Sei que você ainda gosta de mim. Sinto no meu peito que ainda existe amor. Mas infelizmente não posso te prometer o mundo, nem uma vida longa, nem a minha companhia para todo sempre. Não que eu não queira, mas não sei até que ponto poderei cumprir minhas promessas.
Você tem toda razão quando diz que eu não sei o que quero da minha vida. Você tem absoluta razão quando sente medo do futuro. Você acerta sempre quando descobre os meus defeitos escondidos nas minhas entranhas. Eu tenho todas as características do monstro ridículo que você vê. Eu sou feia, egoísta, mimada. Eu sou uma medrosa com carteirinha profissional.
Mas, mesmo em pedaços, eu busco forças não sei aonde para tentar mais uma vez. Eu visto minha armadura para derrubar os soldadinhos que tentam raptar o nosso amor. Eu me torno forte e grande e poderosa para afastar os inimigos que apostam que não vai durar. Só que eu preciso de ajuda e estou esperando você segurar a minha mão. Você não vem?
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